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A VIVERDE SEMPRE É
VANGUARDA QUANDO SE TRATA DE EDUCAÇÃO
A TUTORIA que hoje é realidade para as escolas de elite de São
Paulo, já está implantada entre nós desde 2004.
Sob tutela
Ensinar alunos a organizar o tempo de
estudo, a agenda e até a mochila agora faz parte do currículo
Danilo Verpa/Folha
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Felipe Braga Kienast, 10, com
a sua professora, na aula de estudo semanal do Santo Américo
TALITA BEDINELLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Estabelecer os horários em que a criança fará
a lição ou ensiná-la a organizar a agenda e a mochila são
atribuições dos pais, certo? Nem sempre. Escolas particulares de São
Paulo estão criando uma disciplina para ensinar essas tarefas e
aumentar o compromisso de crianças e jovens com o estudo.
Em aulas que acontecem uma ou duas vezes por semana, tutores entram
na sala para mostrar aos alunos como se organizar e estabelecer
horários rígidos para os estudos em casa.
A mudança é estimulada por uma nova concepção de ensino. Antes, ele
era mais focado na transmissão de informação e na "decoreba". Hoje,
é mais centrado na interdisciplinaridade. "Os alunos precisam saber
estabelecer relações [entre os conteúdos]", diz Elaine Marquezini,
coordenadora do fundamental 1 do colégio Santo Américo (zona oeste),
que criou no ano passado a disciplina "aulas de estudo semanal".
Ana Paula Braga Kienast, 39, mãe de Felipe, 10, aprovou a
iniciativa. "A gente não precisa ficar cobrando, porque ele já vem
com a matéria estudada."
Como esse novo tipo de aprendizado - exigido em vestibulares e
provas como o Enem- é mais complexo, as escolas têm de fazer com que
os alunos se dediquem mais.
Por isso, a disciplina, chamada na maioria dos colégios de tutoria,
tem adquirido um papel tão importante quanto as aulas de português
ou matemática. A ideia é que os pupilos "aprendam a aprender", na
definição de Iberê Lopes, um dos tutores da Suíço-Brasileira.
Em geral funciona assim: quando entram no 6º ano (antiga 5ª série) e
passam a ter mais professores, matérias e tarefas, os alunos são
ensinados a se organizar -anotando a lição de casa na agenda, por
exemplo. Conforme vão avançando de série e ganhando maturidade,
aprendem as maneiras de estudar (com resumos, esquemas ou
fichamentos).
Em alguns colégios, como o Stockler, o aluno tem até uma planilha
que define qual disciplina deve ser estudada no dia e por quanto
tempo. No Albert Sabin, o tutor é também uma espécie de terapeuta:
conversa individualmente com todos os alunos sobre as suas vidas
pessoais, tudo para saber a origem de eventuais dificuldades.
Já no I.L. Peretz, os tutores realizam com o aluno autoavaliações.
"Vemos com eles quantas vezes o estudo é interrompido pela ida à
geladeira", exemplifica Evelina Holender, assessora pedagógica da
escola.
Nilson José Machado, chefe do departamento de metodologia do ensino
da Faculdade de Educação da USP, considera positiva a introdução da
tutoria nas escolas. "Na universidade, a tutoria é um trabalho de
orientação. Um aluno da educação básica precisa de mais orientação
ainda. Na conversa com os professores se estimula, se cria o
interesse [pelo estudo]."
Mas ele não concorda com a transformação desse tipo de orientação em
uma disciplina. "Há alunos que precisam estudar duas horas, outros,
seis. É importante que a escola respeite essa diversidade."
O pedagogo Ulisses de Araújo, professor da USP-Leste, concorda. "Na
educação tudo o que se tenta homogeneizar é um equívoco. Esse
conceito [de tutoria] vem do modelo de empresas, quer deixar o aluno
organizado, treinado. Para a criança que já tem autonomia, isso pode
ser catastrófico."
As escolas dizem que, apesar de a aula ser comum a todos os alunos,
aqueles com dificuldades recebem atenção individualizada. No
Stockler, por exemplo, a tabela de estudos é definida com cada um
dos jovens e seu uso não é obrigatório. "Ela me ajudou bastante.
Aprendi a me organizar, e as notas melhoraram", conta Rogério
Pereira, 16, aluno do 2º ano do ensino médio.
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